O mundo evangélico necessita de uma maior e melhor compreensão das verdades divinas acerca da graça e da lei. Há muita confusão sobre estas verdades, ao ponto de muitos evangélicos as verem como antagónicas.
Quantas vezes já ouvimos alguém afirmar o seguinte:
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“O Antigo Testamento é apenas história; o Novo Testamento é que é útil para os cristãos.”
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“Na antiga aliança, os homens estavam debaixo da lei; agora, na nova aliança, os homens estão debaixo da graça.”
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“Vivemos pela graça e não pela lei.”
Por muito espirituais que essas e outras afirmações semelhantes possam soar, estão profundamente erradas e representam terrivelmente mal o caráter e os propósitos de Deus.
É certo que a graça e a lei são distintas, mas jamais separáveis. Como alguém disse, e muito bem, não devemos dizer “Lei e Graça”, mas sim “Lei é graça”. É igualmente errado um cristão verdadeiro pensar que vive apenas debaixo da graça.
Como bons herdeiros da reforma protestante, acreditamos no “Sola Gratia” (Somente a graça), ou seja, que somente pela graça de Deus o homem pode ser salvo; a salvação não é pelos nossos méritos e nem pode ser conquistada por nenhuma obra nossa. No entanto, também devemos considerar que a prova da nossa eleição e salvação é a obediência à lei de Deus, confirmada pela realização de boas obras. Não somos salvos pelas boas obras, mas fomos salvos para realizar boas obras através do cumprimento da lei de Deus.
No meio do povo de Deus, encontramos aqueles que enfatizam tanto a graça que se esquecem do propósito de Deus ao dar a sua lei ao Seu povo. Por outro lado, alguns agarram-se tanto à lei que se tornam escravos dela.
Devemos pensar com equilíbrio sobre a ligação entre a graça e a lei. Primeiramente, a lei não foi anulada com Jesus Cristo; pelo contrário, foi cumprida por Ele, conforme vemos em Mateus 5:17: “Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir.” O verbo traduzido por “cumprir” tem no original o sentido literal de “encher”, ou seja, Jesus veio para dar o ensino correto sobre a lei e, assim, cumpri-la. Nós jamais poderíamos cumprir a Lei; Ele cumpriu-a por nós. Pelas obras da lei, não podíamos ser salvos; é pelas obras de Cristo que podemos ser salvos.
É muito importante também definir sobre qual lei estamos a falar. Vários reformadores optaram por dividir a lei em três categorias:[1]
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A lei cerimonial: Dirigia os judeus para a fé no seu Messias; esta lei cerimonial está agora cumprida em Cristo.
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A lei judicial: Não é obrigatória para o governo cristão, mas serve como modelo para o uso civil, encorajando o bom governo e a paz.
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A lei moral: Esta é permanente e ainda aplicável a todos os cristãos.
João Calvino considerava esta uma divisão tradicional e utilizava-a.
Apesar de podermos retirar bons princípios para as nossas vidas das leis civil e cerimonial, a lei que devemos aplicar diretamente na nova aliança é a lei moral, que todos nós, que já estamos em Cristo, devemos seguir como padrão para o nosso viver e para saber como agradá-Lo em todas as coisas (João 14:21). Portanto, a lei que permanece vigente em todas as épocas é a lei moral de Deus, desde Adão até aos dias de hoje, pois não pode ser abolida, visto que é uma expressão do caráter de Deus.
Onde Encontramos a Lei Moral?
Nos Dez Mandamentos (ver Êxodo 20:1-17), que são o resumo de toda a lei. E toda a lei pode ser resumida em apenas dois mandamentos:
“E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” Mateus 22:37-40
Infelizmente, muitos cristãos olham para a lei de uma forma negativa, como se fosse o lado carrancudo de Deus para nós. Nada podia estar mais errado; esse pensamento é incorreto. A lei sempre teve um propósito gracioso para conosco: ela revela a nossa verdadeira condição diante de Deus, mas também revela a nossa necessidade do Salvador Jesus Cristo (Gálatas 3:24). A lei exige perfeição, mas é também a única que nos orienta claramente a viver de acordo com o padrão aceitável por Deus. Por tudo isto, a lei deve ser apreciada pelo cristão como uma expressão graciosa da vontade de Deus.
Por fim, olhemos para a graça como necessária e real para nós por causa da lei. Ambas são inseparáveis e manifestam-se na sua plenitude na cruz de Jesus Cristo. O significado mais básico de graça é “favor imerecido”; o significado mais profundo encontra-se na manifestação da graça especial e particular para todos os crentes na sua eleição, regeneração, justificação, santificação e glorificação. A graça opera especialmente na vida do crente desde o momento da sua salvação e acompanha-o durante toda a sua vida, pois, na verdade, somos dependentes da graça em tudo.
Resumindo, vemos que a lei exige justiça dos homens, enquanto a graça concede justiça aos homens através de Jesus e nos ajuda a permanecer no caminho da justiça no cumprimento da lei de Deus.
Goste.